18 DE AGOSTO DE 2026

Psicanálise: Por que ler Freud? – Murillo Sapia Gutier

Capa do artigo Por que ler Freud?

Por que ler Freud?: as teses fundamentais da Introdução à Psicanálise

Murillo Sapia Gutier | murillogutier@hotmail.com


Resumo

A pergunta que abre este estudo é menos ingênua do que parece: ainda precisamos de uma introdução à psicanálise? O texto sustenta que sim — e justamente porque as palavras de Freud entraram no vocabulário comum. A familiaridade produziu um preconceito novo, simétrico ao antigo escândalo moral: entre a vulgarização, que reduz “ter complexos” a “ter inibições”, e o hermetismo dos especialistas, que confisca a doutrina em jargão, a novidade prodigiosa do pensamento freudiano dissolve-se. Recuperar o Freud pedagogo — aquele que expôs suas ideias, entre 1915 e 1917, diante de um auditório de médicos e leigos — é o caminho para restituir à psicanálise o que ela tem de perturbador.

A partir da leitura crítica de Michel Haar, o artigo reconstrói as duas teses das quais Freud jamais variou e que, segundo ele próprio, chocaram todo mundo. A primeira é o inconsciente, examinado em três registros encadeados: a tese radical, segundo a qual o inconsciente não é um apêndice do psiquismo mas o psíquico ele mesmo; a definição descritiva, que separa o pré-consciente meramente latente do inconsciente permanentemente inacessível; e a definição dinâmica, que identifica o inconsciente ao recalcado, mantido à distância por uma censura. Como o recalque nunca é perfeito, o recalcado retorna deformado — e a psicanálise define-se, em fórmula feliz de Haar, como a busca e a desmistificação das formas ilusórias de satisfação.

A segunda tese é a sexualidade, submetida à mesma operação de ampliação conceitual. Assim como o psiquismo não se reduz à consciência, o sexual não se reduz à genitalidade nem à procriação: começa na primeira infância, investe o corpo inteiro por meio das zonas erógenas e repousa numa energia plástica, a libido, capaz tanto de recalque — origem das neuroses — quanto de sublimação — origem da cultura. A acusação de pansexualismo desfaz-se diante da constatação de que as pulsões sexuais não são as únicas e de que a sexualidade, desvinculada de fins prefixados, é potência indeterminada. A síntese do sistema está no conflito entre o princípio do prazer, que rege o inconsciente, e o princípio de realidade, que torna possíveis o trabalho, a sociedade e os vínculos duráveis.

Palavras-chave: Freud. Introdução à Psicanálise. Inconsciente. Recalque. Censura. Sexualidade infantil. Libido. Sublimação. Princípio do prazer. Princípio de realidade. Michel Haar.


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Por que ler Freud? — Murillo Sapia Gutier

16 páginas · leitura estimada de 19 minutos


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